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Do zero ao Oscar: como o cinema brasileiro se reinventou em doze meses

Depois do primeiro Oscar de Ainda Estou Aqui, em março de 2025, o cinema brasileiro virou a chave: manter o ritmo e levar Feito Pipa à cerimônia de 2027.

Por Thrillsy 8 min de leitura

O diretor Kleber Mendonça Filho em um set de filmagem movimentado no Ceará durante as gravações de Feito Pipa

Na noite de 15 de março de 2025, uma sala cheia de brasileiros em Los Angeles finalmente soltou o ar. Ainda Estou Aqui levou o Oscar de melhor filme internacional, e a indústria cinematográfica do país cruzou um limiar que havia permanecido fechado por décadas. Dezoito meses depois, a conversa já mudou. O Brasil não pergunta mais se tem lugar naquele palco; está decidindo qual filme enviar a seguir.

A velocidade dessa virada impressiona. Por anos, as indicações brasileiras iam e voltavam sem uma vitória sequer. Aí, em apenas doze meses, o país passou da primeira estatueta a quatro indicações num único ano. A dúvida deixou de ser se o cinema brasileiro sabe competir; passou a ser como a indústria montou uma máquina suficientemente robusta para manter o fluxo.

O nome dessa máquina agora é Feito Pipa, um drama moldado pela luz e pelo vento do Ceará, que carrega as apostas do Brasil para a cerimônia de 2027. Os antecessores provaram que a porta estava aberta. O trabalho daqui para a frente é provar que é possível atravessá-la de novo sem esperar mais vinte anos.

Do zero a quatro indicações em um único ano

O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, manteve o embalo. O filme conquistou o Globo de Ouro de melhor filme em língua não inglesa, e Wagner Moura ficou com o troféu de melhor ator em drama. Quando a Academia anunciou a lista de 2026 em 15 de março, O Agente Secreto recebeu indicações em quatro categorias: melhor filme, melhor filme internacional, a recém-criada categoria de melhor elenco, e melhor ator para Moura. Ele se tornou o primeiro ator brasileiro indicado naquela categoria.

As derrotas doeram mesmo assim. Sentimental Value, da Noruega, levou o prêmio de filme internacional, e Michael B. Jordan venceu como melhor ator por Sinners. Mas a amplitude das indicações era inédita para uma produção brasileira. Nunca antes um filme brasileiro estivera na disputa por melhor filme. Os quase acertos traçaram um mapa para o sucesso futuro. Os votantes da Academia passaram a olhar os lançamentos brasileiros em várias categorias, em vez de simplesmente enfiá-los de qualquer jeito na categoria internacional.

Esse reconhecimento mudou também como agentes e diretores de elenco leem nomes brasileiros numa escalação. Uma indicação ao Oscar de atuação é uma moeda de troca imediata. Diretores que antes sofriam para atrair astros de peso para roteiros ambiciosos agora recebem ligações sem parar. A esteira se enche porque o argumento comercial de um filme brasileiro de prestígio de repente se tornou claro para investidores que antes só olhavam para Paris, Seul ou Cidade do México.

Três forças por trás da virada do cinema brasileiro

Nada disso caiu do céu. A indústria passou meia década reconstruindo sua esteira, e três mudanças saltam aos olhos em todo lançamento maior.

A estratégia de festivais veio primeiro. Os produtores deixaram de tratar Cannes, Berlim, Veneza e Toronto como meras passarelas de prestígio e passaram a vê-las como plataformas de lançamento. Feito Pipa é o exemplo mais recente. O filme de Allan Deberton ganhou o Generation Kplus Grand Prix e um Crystal Bear em Berlim, depois voltou para casa para levar quatro Kikitos em Gramado. Essa sequência assegura agentes de vendas internacionais, gera críticas em inglês e cria as fotos e as citações de destaque de que os consultores de Oscar precisam meses antes do início da campanha. Um prêmio em Berlim, em fevereiro, se transforma em cópias para os votantes em novembro.

O dinheiro mudou também. Netflix, Amazon Prime Video, Globoplay e Telecine Play agora assinam cheques que permitem aos diretores pensar além da bilheteria nacional. Um longa pode recuperar o orçamento por meio de uma licença de streaming, mesmo que a bilheteria em São Paulo decepcione. Essa rede de proteção significa histórias mais arriscadas, mais recursos de produção e produções que se ajustam às agendas de astros como Lázaro Ramos e Wagner Moura sem precisar cortar gastos. Para quem assiste em Manaus ou Curitiba, um lançamento simultâneo não depende mais de um cinema local com coragem de programar um filme de arte. O filme simplesmente aparece na plataforma que a pessoa já paga.

A terceira virada é o próprio público. Os brasileiros deixaram de tratar o cinema nacional como uma obrigação e passaram a tratá-lo como atração. A cobertura midiática avassaladora da corrida do Oscar de Ainda Estou Aqui e da campanha de O Agente Secreto transformou esses filmes em tema de conversa em todo lugar, de Porto Alegre a Salvador. As vendas de ingressos para produções domésticas subiram nesse período, e as taxas de conclusão nos streamings, a métrica que as plataformas realmente levam em conta, dispararam para títulos brasileiros. O país agora produz filmes para espectadores que esperam que eles vençam, e essa expectativa muda como os diretores filmam, como os atores atuam e como os distribuidores divulgam.

Em segundo plano, a Ancine e as leis de incentivo federal ainda oferecem a estrutura de apoio indispensável, embora os produtores tenham aprendido a se adaptar às mudanças de política com mais agilidade do que há dez anos. O dinheiro não é tão previsível quanto um adiantamento da Netflix, mas mantém produções de orçamento médio ativas entre as superproduções.

Feito Pipa e o calendário de 2027

Em 16 de setembro de 2026, a Academia Brasileira de Cinema deu seu palpite. Feito Pipa vai representar o Brasil no 99º Oscar, respaldado por um calendário de lançamento desenhado para máxima exposição entre os votantes. O filme estreia nos cinemas brasileiros em 5 de novembro de 2026, uma data que cumpre as regras de elegibilidade da Academia e dá a críticos e ao público pagante três meses inteiros para criar boca a boca antes da chegada da lista de pré-seleção em dezembro de 2026. As indicações saem em 21 de janeiro de 2027, e a cerimônia sela o resultado em 14 de março de 2027.

Deberton ambientou a história no Ceará, e o elenco mistura o rosto conhecido de Lázaro Ramos com os talentos mais novos Yuri Gomes e Teca Pereira. Os prêmios em Berlim e Gramado já provam que o filme tem apelo fora do país. Um Crystal Bear do júri Generation Kplus diz aos compradores internacionais que a história transcende barreiras culturais, enquanto quatro Kikitos em Gramado lembram ao público doméstico que a torcida da casa aprovou. Essa combinação é exatamente o que uma campanha para o Oscar precisa: credibilidade internacional e paixão local.

Ser o representante brasileiro não garante nada. O Brasil esperou décadas pela primeira vitória. Dois anos fortes não reescrevem os hábitos de voto da Academia. Feito Pipa tem o pedigree de festival e a data de lançamento em novembro que os consultores adoram. O que ele não controla é a concorrência, que neste ciclo inclui pesos-pesados da Coreia do Sul, França e Japão, muitos com orçamentos de campanha mais robustos e relações prévias com distribuidores americanos. O corte da lista de pré-seleção em dezembro será o primeiro teste de verdade. Sobreviver a ele, e o filme entra em janeiro com embalo. Ficar de fora, e a conversa volta para 2028.

Onde assistir a essa onda

Para quem está montando uma lista de filmes para ver, o acervo já está na palma da mão. Ainda Estou Aqui está disponível nos principais streamings do Brasil. Dependendo do mês e do ciclo de licenciamento, você o encontra no Globoplay, Telecine Play, Amazon Prime Video ou Netflix. Como os streamings nacionais costumam rotacionar títulos de prestígio a cada trimestre, vale conferir dois ou três serviços se a primeira busca não der em nada. O Agente Secreto segue trajetória parecida depois da temporada de premiações, embora o peso da indicação a melhor filme signifique que ele pode ter janelas de exclusividade mais longas antes de chegar aos catálogos mais amplos.

Feito Pipa exige paciência ou um ingresso de cinema. A janela teatral abre em 5 de novembro de 2026, e o filme permanece exclusivo das telas na rodada inicial. Depois disso, a expectativa é que ele chegue primeiro a um streaming nacional, provavelmente Globoplay ou Telecine Play, seguido de disponibilidade mais ampla na Amazon e na Netflix. Opções de aluguel e compra digital pelo Google Play, Apple TV e YouTube Movies costumam aparecer depois que o período de exclusividade no streaming expira, normalmente de quatro a seis meses após a estreia nos cinemas.

Se você acompanha o filme do exterior, fique de olho nos portais industriais da Berlinale e de Gramado. Os dois festivais oferecem ocasionalmente janelas digitais curtas para imprensa e delegados internacionais, embora essas não sejam exibições públicas. Para quem estiver planejando uma viagem para coincidir com o lançamento, novembro de 2026 oferece uma chance rara de ver um potencial indicado ao Oscar em sua exibição teatral no país antes do resto do mundo.

O verdadeiro teste ainda está por vir

As corridas consecutivas do Brasil no Oscar refletem uma mudança estrutural, não um gol de sorte. Dois anos atrás, a conversa nacional girava em torno da ausência da estatueta. Agora, o debate é se um drama rodado no Ceará consegue repetir o feito. Essa inversão é real e definitiva.

Ainda assim, a lista de pré-seleção da Academia não tem lealdade. Vitórias passadas não garantem vagas futuras, e melhor filme internacional continua sendo uma das categorias mais concorridas da cédula. Feito Pipa chega com louros de Berlim, um protagonista conhecido e um calendário de lançamento montado por gente que entende o sistema. O que falta é certeza. Os próximos seis meses dependerão da força do distribuidor, do impulso da crítica em Los Angeles e Nova York, e de que os jurados se lembrem do filme ao preencherem as cédulas em janeiro.

A leitura mais honesta deste momento é enxergá-lo como prova de que o cinema brasileiro agora funciona num relógio diferente. Diretores apresentam projetos com Cannes, Berlim e Veneza na cabeça desde o primeiro rascunho. Os streamings financiam os projetos com contratos de distribuição global já firmados. O público doméstico trata esses filmes como programação indispensável, e não como obrigação cultural. O Oscar de 2025 quebrou a seca. Tudo desde então, incluindo o caminho até 14 de março de 2027, serve para tornar comum o que antes era uma exceção.