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Globo de Ouro de Fernanda Torres coroa carreira de histórias brasileiras

Fernanda Torres ganhou o Globo de Ouro por Ainda Estou Aqui, coroando uma carreira dedicada a histórias brasileiras, especialmente as que confrontam a ditadura.

Por Thrillsy 7 min de leitura

Fernanda Torres, na plenitude da carreira, em vestido elegante, segura o troféu do Globo de Ouro no palco do Beverly Hilton com postura desafiadora

Fernanda Torres subiu ao palco do Beverly Hilton em 5 de janeiro de 2025 e fez algo que nenhuma atriz brasileira havia conseguido antes: segurou um Globo de Ouro de melhor atriz em filme de drama e dedicou o prêmio aos que resistiram à ditadura militar que marcou a história recente do país. O momento levou décadas para se concretizar, embora a imprensa de Hollywood tenha tratado sua chegada como se fosse da noite para o dia. Ninguém por lá a viu crescer nos bastidores do Teatro Oficina, se destacar em Terra Estrangeira, de Walter Salles, em 1996, ou passar duas temporadas transformando Minha Nada Mole Vida na comédia mais afiada da televisão brasileira. Também não leu seus romances. O Globo de Ouro foi uma estreia, mas não um começo.

O filme que mudou a conversa

Ainda Estou Aqui chegou como produção original da Globoplay, na aposta de que o público brasileiro queria ver a própria história contada com paciência e precisão, não com espetacularização. A aposta deu resultado além do esperado. Walter Salles dirigiu a partir do livro de memórias de Marcelo Rubens Paiva, publicado em 2015, e traçou o que aconteceu com Eunice Paiva depois que o marido, o ex-deputado Rubens Paiva, sumiu no aparato da ditadura em 1971. Torres vive Eunice ao longo de décadas numa atuação contida: a respiração controlada diante de uma mesa militar, a mão firme servindo o jantar para filhos que ainda perguntam quando o pai vai voltar.

A ditadura acabou em 1985, mas os arquivos seguiram fechados e os responsáveis, em grande parte, impunes. O cinema brasileiro já abordou repetidamente esse período, mas Ainda Estou Aqui encontrou uma porta diferente. Não é um thriller político sobre o sequestro em si. É um filme sobre o esforço de seguir em frente: criar cinco filhos enquanto se bate à porta de tribunais que não respondem, manter uma casa cujo centro foi silenciosamente retirado. Torres faz a dignidade de Eunice parecer um esforço, porque era.

De Beverly Hills ao teatro Dolby

A vitória no Globo de Ouro recalibrou as expectativas para o que viria depois. Em 2 de março de 2025, na 97.ª edição do Oscar, Ainda Estou Aqui recebeu três indicações: melhor filme, melhor filme internacional e melhor atriz para Torres. Venceu na categoria de melhor filme internacional, e a imprensa brasileira classificou a vitória como histórica na hora. A qualificação, porém, exige precisão. Orfeu Negro, filme de 1959 ambientado nas favelas do Rio durante o Carnaval, já tinha ganhado o Oscar equivalente, mas foi enviado pela França. Os registros da Academia listam a França como país de origem. Ainda Estou Aqui foi enviado pelo Brasil, produzido por brasileiros, dirigido por um brasileiro, protagonizado por uma brasileira e financiado em grande parte por um serviço de streaming brasileiro. Essa distinção importa para quem acompanhou o cinema brasileiro lutar por reconhecimento institucional enquanto suas histórias eram reivindicadas ou cooptadas por outras indústrias nacionais.

Torres não levou o Oscar de melhor atriz. A estatueta ficou com Mikey Madison. A derrota não ofuscou a noite; colocou Torres numa linhagem específica, a da própria mãe. Fernanda Montenegro tinha sido indicada tanto ao Globo de Ouro quanto ao Oscar por Central do Brasil, em 1999, e não ganhou nenhum dos dois. A atuação de Montenegro como Dora, a aposentada que escrevia cartas para terceiros, continua sendo uma das cenas mais assistidas da história do cinema brasileiro, em especial a cena na escada rolante da própria Central do Brasil, com o rosto dela registrando cada emoção que chega como se fosse um trem diferente. Torres passou a carreira inteira na sombra dessa reputação e falava do assunto com algo entre o humor e o cansaço. O triunfo no Globo de Ouro não resolveu essa dinâmica, mas a complicou de forma produtiva: agora há duas gerações de atrizes indicadas na mesma família, e a filha tem o prêmio que a mãe não recebeu.

Onde a história da família encontra a do país

Fernando Torres, pai de Fernanda, morreu em 2008. Estava entre os atores de teatro mais respeitados da geração, embora nunca tenha tido a mesma visibilidade internacional da esposa. A casa onde Fernanda cresceu não era apenas artística, mas uma instituição: o Teatro Oficina, onde os pais se apresentavam e onde a ditadura militar exercia pressão sobre a produção cultural. A biografia familiar cruza-se com o trauma nacional em vários pontos, o que pode explicar por que a atuação de Torres em Ainda Estou Aqui carrega uma qualidade de memória herdada. Não interpreta a própria mãe, mas vive uma mulher da geração da mãe que resistiu ao que os pais presenciaram.

A carreira de Torres transitou entre registros com uma liberdade fora do comum. Depois dos primeiros trabalhos no teatro, fez Terra Estrangeira com Salles e Daniela Thomas em 1996, vivendo uma imigrante em Lisboa presa num submundo noturno de diamantes roubados e uma saudade distante. O filme a anunciou como uma atriz dramática de uma quietude fora do comum. Aí virou para Minha Nada Mole Vida, sitcom de 2006-2007 sobre uma ex-rica se adaptando a uma vida mais modesta, e mostrou um timing cômico que beirava o vaudeville. Saneamento Básico, o Filme (2007) a colocou no elenco da sátira de Jorge Furtado sobre política de interior e infraestrutura de esgoto, um filme que parece lição de cidadania e funciona como comédia de roubo. Publicou romances, como Fim, de 2013, que a Globoplay adaptou depois em série. O fio condutor não é uma persona única, mas a recusa em ser reduzida a uma só.

Como assistir à obra

No Brasil, Ainda Estou Aqui está no Globoplay, que produziu o filme. A assinatura da plataforma custa aproximadamente R$ 34,90 por mês em 2025, com o filme incluso no catálogo base. A disponibilidade internacional varia de acordo com o território. Nos Estados Unidos e em vários mercados europeus, o filme esteve disponível na Apple TV, Amazon Prime Video e Google Play para aluguel ou compra, embora os acordos de distribuição mudem trimestralmente e o leitor deva confirmar as ofertas atuais. Plataformas de cinema de arte, como a MUBI, também já exibiram trabalhos de Salles.

Os filmes anteriores de Torres estão mais espalhados nas plataformas de streaming. Terra Estrangeira aparece esporadicamente em serviços especializados de cinema mundial ou em mostras retrospectivas em São Paulo e no Rio de Janeiro. Saneamento Básico está disponível para aluguel digital em várias plataformas no Brasil. Minha Nada Mole Vida continua no Globoplay como parte do acervo de produções originais de comédia. Para quem se interessar pela prosa dela, Fim está disponível nas livrarias e em formato digital, publicado pela Companhia das Letras.

O que o reconhecimento significa de fato

O Globo de Ouro e o Oscar geraram a onda previsível de orgulho nacional, as montagens de TV, as postagens presidenciais nas redes. Mais duradouro, porém, é o que esses prêmios revelam sobre a infraestrutura de produção brasileira. Globoplay financiou um filme sobre a ditadura, contratou Salles, escalou Torres e conduziu o projeto até a campanha de premiação em Los Angeles. Essa sequência era impossível duas décadas atrás, quando o cinema brasileiro dependia de verbas públicas esporádicas e coproduções internacionais irregulares. A economia do streaming tem problemas bem documentados para atores e roteiristas em atividade, mas para um tipo específico de projeto de médio orçamento e identidade cultural definida, criou um canal que a distribuição nos cinemas sozinha não sustentaria.

A própria Torres tem se mostrado notavelmente contida nas declarações públicas, evitando o discurso triunfalista que a imprensa prefere. Em entrevistas depois do Globo, sempre voltava a Eunice Paiva, às famílias que nunca tiveram respostas, ao fato de que os arquivos da ditadura seguem parcialmente fechados até hoje. A atuação, sugeriu, não era uma forma de reviver a experiência de sua própria família, mas um ato de atenção à experiência de outra pessoa. Essa modéstia é estratégica ou genuína, não importa. Isso molda a leitura da conquista. Torres não se apresenta como representante do cinema brasileiro. Diz apenas que o cinema brasileiro guarda histórias que merecem a atenção de quem quiser parar para ouvi-las.

A temporada de premiações de 2025 vai ser lembrada por vários marcos inéditos. Para o público brasileiro, a pergunta que vale não é se a vitória de Torres muda a forma como Hollywood enxerga o país. A atenção de Hollywood é cíclica e condicional. A pergunta que vale é se a indústria nacional consegue converter essa visibilidade em produção sustentada de filmes que partam do pressuposto de que a plateia é inteligente, informada historicamente e disposta a ser desafiada. Ainda Estou Aqui parte desse pressuposto nas três frentes. A carreira de Torres, vista por inteiro, mostra que esses pressupostos não são novos e apenas aguardavam que a distribuição e o reconhecimento alcançassem o mesmo patamar.