Histórias
Os 100 dias de Amyr Klink: a história real da travessia do Atlântico
Em 1984, Amyr Klink atravessou o Atlântico Sul a remo sozinho num barco de compensado por 100 dias, tornando uma expedição ignorada em façanha celebrada.
A primeira pessoa a atravessar o Atlântico Sul a remo sozinho partiu com quase ninguém apostando que ele sobreviveria. Amyr Klink tinha 28 anos, construiu um barco de compensado em um galpão e saiu de uma cidade pesqueira da Namíbia com suprimentos para três meses, sem nenhuma embarcação de apoio. Ao chegar à costa da Bahia 100 dias depois, os mesmos jornais que tinham ignorado a partida estampavam manchetes perguntando quem era aquele homem. Era outubro de 1984. Quatro décadas depois, o livro ainda vende, a cidade natal ainda guarda os barcos e um filme de peso se prepara para mostrá-lo a quem nunca remou.
O barco que precisava ser mais esperto que o construtor
Klink batizou a embarcação de IAT, três letras com vários sentidos. Alguns leem como “International Atlantic Transit”. Outros ouviram a palavra tupi-guarani para terra, o planeta que ele tentava cruzar com as próprias forças. O barco media só 5,9 metros da proa à popa, mais ou menos o tamanho de dois carros estacionados. Ele construiu o casco de compensado e fibra de vidro com ajuda de amigos, otimizando a capacidade de se endireitar sozinho e os compartimentos estanques, qualidades que importavam mais do que a velocidade.
O sistema de endireitamento não era teoria. O Atlântico Sul gera ondas gigantes que capotam embarcações pequenas. O casco de Klink tinha peso e forma calculados para que, se uma onda o colocasse na vertical, a gravidade o puxasse de volta à horizontal antes da próxima onda chegar. Compartimentos estanques guardavam comida, água doce e o equipamento de navegação, único jeito de saber para onde as correntes empurravam o barco. O banco de remo ficou posicionado para eficiência máxima durante milhares de horas, não para conforto. Não havia cabine onde pudesse ficar de pé, nem beliche para se deitar. Durante 100 dias, o barco foi o mundo inteiro dele.
O que 100 dias sozinho realmente significam
Klink largou de Lüderitz, na Namíbia, no dia 10 de junho de 1984. Desembarcou na Praia da Espera, em Itacimirim, na Bahia, no dia 18 de setembro, e seguiu para Salvador. A linha reta entre a largada e a chegada é de cerca de 6.500 quilômetros. As fontes variam entre 3.200 e 3.500 milhas náuticas, dependendo de se medir até Itacimirim ou Salvador, e da inclusão dos desvios impostos pelas correntes.
Essas correntes foram personagens da travessia, não cenário de fundo. A Corrente de Benguela flui para o norte ao longo da costa africana, empurrando Klink para longe do destino nas primeiras semanas de travessia. Mais adiante, a Corrente Sul Equatorial corta o Atlântico do leste para o oeste, ajudando quando ele conseguiu se afastar o suficiente da costa para alcançá-la. A rota real descreveu uma curva, não uma linha, somando distância que nenhuma projeção de mapa representa com fidelidade.
A carga física foi implacável. Remar 12 a 14 horas por dia, contra a corrente ou atravessando-a, deixava-o em estado de fadiga permanente. O sono vinha em fragmentos, nunca profundo o bastante para se recuperar. Ele precisava cuidar do barco, consertar o que quebrasse, orientar-se pelo sol e pelas estrelas quando a eletrônica falhasse, e racionar comida e água caso a travessia durasse mais do que o previsto. Tubarões e baleias passavam sob um casco fino demais para oferecer proteção efetiva. Uma falha de equipamento em qualquer ponto daquela curva significava que não haveria resgate. Nenhuma chamada de rádio traria ajuda a tempo.
A carga psicológica corria paralela. Três meses sem voz humana, sem toque, sem estímulo que não fosse o horizonte e os próprios pensamentos. Klink descreveu depois momentos de alucinação, de falar sozinho em voz alta só para manter o som da linguagem, de forçar estrutura sobre dias que queriam se dissolver na mesmice. O livro que escreveu captura isso não como heroísmo, mas como aritmética: horas divididas em turnos, calorias divididas em refeições, vontade dividida em manhãs nas quais desistir teria sido mais fácil do que continuar.
O livro que sobreviveu à façanha
Cem Dias Entre Céu e Mar saiu em 1985, um ano depois do desembarque. Vendeu mais de 300.000 exemplares no Brasil, números extraordinários para um relato em primeira pessoa de resistência física escrito por um autor que ninguém conhecia três anos antes. A prosa é direta, quase enxuta, construída a partir dos diários de bordo que Klink anotou em cadernos à prova d’água. Ele registrava o tempo, a posição, o estado físico e as observações que o isolamento afiava: fosforescência na água à noite, o silêncio característico de uma tarde sem vento, o modo como medo e tédio podiam dividir a mesma hora.
A influência do livro extrapolou o público de aventura. Virou referência em discussões sobre capacidade brasileira, sobre o que um jovem de uma cidade litorânea podia tentar sem respaldo institucional. Antes da travessia, Klink tinha sido descartado, considerado irrealista por gente que depois disse que sempre torceu por ele. O livro deu a ele o controle da própria história, e os leitores responderam à ausência de vaidade. Ele descrevia o que fez, o que quebrou, o que consertou e no que pensava enquanto fazia. Os trechos filosóficos soam conquistados, não impostos.
Do Atlântico aos polos
A travessia do Atlântico Sul estabeleceu o método de Klink: projetar a ferramenta, treinar o corpo, aceitar a solidão e documentar tudo. Ele aplicou isso a empreitadas maiores. Em 1989, partiu a bordo do Paratii, veleiro batizado em homenagem à sua cidade natal, Paraty, numa expedição que duraria 642 dias e o levaria da Antártida ao Ártico. A travessia “Entre Dois Polos” fez dele o primeiro brasileiro a velejar de uma região polar à outra. Essa rota exigia navegação no gelo, precisão de datas para pegar curtas janelas de água aberta e a mesma tolerância à solidão esticada por quase dois anos.
Uma década depois, em 1998 e 1999, ele voltou à Antártida para uma circunavegação solo de 88 dias ao redor do continente a bordo do mesmo Paratii. Isso não era uma corrida contra concorrentes, mas contra o inverno do sul, contra o gelo que se fecha, contra as falhas mecânicas que atingem embarcações pequenas nas latitudes mais altas. Ele completou. Até então já havia passado mais tempo em expedições do que em terra, e formado uma base de leitores que acompanhava seus passos como outros acompanham temporadas de futebol.
Onde o filme encontra o registro
Carlos Saldanha, diretor de animações que alcançaram público global, estreia 100 Dias nos cinemas brasileiros em 29 de outubro de 2026, com Filipe Bragança no papel de Klink. Desta vez é outra escala, um drama histórico construído em torno de um ator num espaço pequeno fingindo suportar o que um homem de fato suportou. Os fatos centrais são fixos: as datas, o barco, a rota, a proeza. O filme vai inventar a textura do cotidiano, o diálogo que Klink manteve sozinho, os picos emocionais que transformam um diário de bordo em narrativa.
Se você quiser a versão sem filtro, leia Cem Dias Entre Céu e Mar antes, depois ou os dois juntos. O livro não oferece trilha sonora para avisar quando sentir tensão. Oferece o tempo no dia 47, o conserto de um suporte de remo feito com materiais carregados exatamente para essa finalidade, o cálculo de água que restava. O filme vai dar um rosto ao nome. O livro entrega a mente que planejou a travessia e o corpo que a executou.
Como acessar o legado hoje
Paraty, no estado do Rio de Janeiro, continua sendo o porto seguro. Klink cresceu lá e ainda mantém os barcos ancorados onde aprendeu a manejar embarcações pequenas antes de tentar cruzar um oceano numa delas. A cidade é acessível por ônibus saindo do Rio, cerca de quatro horas pela Costa Verde, ou de transporte particular. Se você andar pelo centro colonial, vai passar pela água onde o Paratii foi preparado, embora nada indique o local exato. A casa onde ele morou não é museu. O envolvimento é mais solto, atmosférico: entender que aquele porto produziu alguém que olhou para o Atlântico Sul e decidiu que dava para cruzar com braço próprio.
Para quem for ler Cem Dias Entre Céu e Mar em 2026, o livro funciona como documento histórico e meditação prática ao mesmo tempo. Os detalhes de navegação estão datados, o equipamento foi superado. O problema de estruturar solidão longa, de manter o funcionamento quando todo apoio externo some, continua atual. Trabalhadores remotos, viajantes solitários e quem já passou dias sozinho em condições desconhecidas vão reconhecer parte do método de Klink, mesmo que os riscos sejam menores.
O filme vai trazer novos olhares. Parte do público vai procurar o livro, parte vai procurar Paraty, parte vai pesquisar a distância entre Namíbia e Brasil e tentar imaginar percorrer essa distância na velocidade do remo. Quem seguir com qualquer uma dessas buscas vai descobrir que a façanha de Klink envelheceu para algo mais interessante do que um recorde. É um estudo de caso do que acontece quando preparação encontra recusa em desistir, quando a rejeição dos outros vira dado em vez de desânimo, e quando um barco de 5,9 metros construído em um galpão vira veículo de uma história nacional.