Entretenimento
Guia para o primeiro jogo no Maracanã com entrada por biometria facial
Desde junho de 2025, a Lei Geral do Esporte do Brasil exige cadastro facial para entrar em estádios com mais de 20 mil lugares. Veja como funciona no Maracanã.
Sessenta mil vozes começam a cantar duas horas antes do apito inicial, nos corredores do metrô e na praça do lado de fora. As baterias ensaiam cânticos que não param até o apito final. Na primeira vez no Maracanã, o som chega antes mesmo de avistar as arquibancadas. Quando passa pela catraca, o peito já vibra. Isso não é um lugar que se visita; é uma frequência na qual se entra.
Desde junho de 2025, essa frequência tem um porteiro. A Lei Geral do Esporte (Lei 14.597/2023) tornou obrigatória a entrada por biometria facial em todos os estádios do país com mais de 20 mil lugares. O Maracanã, com capacidade para cerca de 78 mil lugares, também não ficou de fora. Todos os setores exigem cadastro prévio do rosto vinculado a um documento válido. Não há exceção para ingressos cortesia, camarotes premium ou criança que entra como convidada de um sócio. O sistema não se importa se você veio de longe.
Como funciona a biometria na prática
As catracas do Maracanã agora funcionam com reconhecimento facial. O ingresso não basta: é preciso cadastrar o rosto com antecedência e vinculá-lo a um documento. Na entrada, o sistema compara a imagem com a foto do documento original apresentado no dia do jogo.
Para brasileiros com CPF, o processo é simples se feito com antecedência. Compre pelo canal oficial do clube, cadastre a imagem facial durante a compra e leve RG ou CNH. A leitura na catraca leva dois segundos. O gargalo não é a tecnologia; é a multidão que deixou para a última hora e agora se enrola com senhas de aplicativo no calor do Rio.
Visitantes estrangeiros sem CPF enfrentam um processo mais complicado. As regras dos clubes para quem compra com passaporte variam de acordo com o jogo e o mandante. Flamengo e Fluminense, principais mandantes do Maracanã, mantêm procedimentos distintos para compradores internacionais. Normalmente, é preciso cadastrar-se em um portal específico ou apresentar o passaporte para verificação presencial em um ponto autorizado. No dia do jogo, o passaporte original é obrigatório. Não vale cópia, nem foto no celular: tem que ser o documento. Consulte as regras atuais do clube antes de comprar. O processo que funcionou para um jogo do Flamengo pela Copa Libertadores, em março, pode não ser o mesmo para uma partida do Fluminense pelo Brasileirão, em julho.
A exigência da biometria tem um efeito colateral a seu favor: dificultou muito a revenda de ingressos. Um cambista do lado de fora não pode mais entregar um ingresso de papel e desejar sorte. O rosto no cadastro precisa bater com o rosto na catraca. Isso não elimina a fraude completamente, mas transfere o risco drasticamente para quem compra por fora.
Onde sentar quando você não é de nenhum dos lados
O Maracanã se divide emocionalmente no eixo norte-sul. A Norte abriga as torcidas organizadas do time da casa. Aqui a bateria não dá trégua, bandeiras cobrem setores inteiros e os cânticos são ensaiados e ensurdecedores. Para quem quer a versão mais crua da cultura do futebol brasileiro na primeira visita, a Norte é o lugar. Para quem vai com crianças, para quem precisa sentar de vez em quando ou simplesmente quer acompanhar o jogo com os dois olhos, provavelmente é demais.
A Sul funciona como setor visitante quando Flamengo ou Fluminense é o mandante. Também serve como arquibancada do Flu quando ele é o mandante principal. A intensidade aqui depende do adversário. Um time do interior em uma quarta-feira de Copa do Brasil não faz muito barulho. Uma visita do Vasco da Gama ou do Botafogo transforma a Sul numa panela de pressão.
Quem é neutro ou vai pela primeira vez deve olhar para as laterais Leste ou Oeste. Elas correm ao longo do campo, oferecem visão panorâmica e mantêm um volume que ainda te envolve sem exigir entrega total. O setor Oeste abriga o Maracanã Mais, a área premium onde R$ 500 (no jogo Flamengo x Remo, 19 de março de 2026) dá direito a buffet, open bar até o intervalo e cadeiras acolchoadas. Ingressos para o público geral na mesma partida variaram de R$ 80 a R$ 200, dependendo do setor. Preços para sócios começaram em R$ 20. A Sul B, para torcedores visitantes, custou R$ 80. Todos esses valores mudam de acordo com o adversário e a competição. Uma partida de mata-mata da Libertadores contra um gigante argentino não se parece em nada com uma fase inicial da Copa do Brasil contra um time da Série C.
Como comprar sem ser enganado
Os únicos canais confiáveis são os controlados pelos clubes. Para jogos do Flamengo, ingressos.flamengo.com.br é o portal principal. Torcedores visitantes costumam comprar pelo futebolcard.com. As bilheterias do estádio vendem ingressos em datas específicas, mas o cadastro biométrico é mais fácil de fazer online com antecedência.
Vendedores de rua na Praça Maracanã no dia do jogo não são apenas caros demais. Eles vendem ingressos que o sistema de biometria vai rejeitar. O rosto no cadastro não é o seu, e a catraca vai saber em menos de um segundo. Você vai parar do lado de fora, algumas centenas de reais mais leve, ouvindo o rugido pelo qual pagou para fazer parte.
Como chegar e como ir embora
A estação Maracanã do metrô deixa você na porta do estádio. A linha 2 (Verde) atende direto ao Centro, à Zona Sul e à conexão com a Tijuca. A rede de trens urbanos da SuperVia também termina na estação adjacente, útil se você vem da Baixada Fluminense ou dos subúrbios do norte. Os dois sistemas operam horários ampliados em jogos grandes, mas a multidão após a partida ainda é grande. Espere passar de 20 a 30 minutos em uma plataforma lotada depois do apito final.
Jogos noturnos trazem um problema específico. O metrô fecha à meia-noite durante a semana, um pouco mais tarde nos fins de semana. Uma partida que termina perto das 23h, com acréscimos ou pênaltis, pode deixar pouco tempo de sobra. A SuperVia opera em horário próprio. Se estiver hospedado na Zona Sul, planeje a saída antes dos dez minutos finais, ou conte com a tarifa dinâmica de aplicativos de transporte que pode triplicar o valor normal. A região ao redor do estádio depois do anoitecer não é perigosa da forma que a cobertura estrangeira às vezes sugere, mas é caótica, mal iluminada em alguns trechos e cheia de multidões desorientadas. Ande com objetivo.
O que vestir e o que deixar em casa
Não use as cores do time visitante na arquibancada da casa. Essa é uma regra social rígida, aplicada com mais rigor pelos torcedores ao redor do que por qualquer segurança. Um visitante neutro com roupa genérica não chama atenção. Um torcedor adversário na Norte atrai bem mais atenção do que é confortável. O mesmo vale, em sentido contrário, se acompanhar o time até a Sul.
Os itens proibidos são os de praxe nos grandes estádios, mas vale repetir: sem garrafas, sem sinalizadores, sem bandeiras grandes em mastros, sem câmeras profissionais com lentes intercambiáveis, sem drones. A segurança é rigorosa e sem senso de humor. A comida dentro é comida de estádio: cachorro-quente, pipoca, pizza fatiada em embalagens de papelão, cerveja em copos plásticos. Os preços ficam em torno do dobro do que se pagaria lá fora. A exceção é o buffet do Maracanã Mais, cujo valor depende de quanto se pretende consumir antes do início do segundo tempo.
O estádio sem jogo
Se sua viagem não coincide com a agenda de jogos, o Maracanã ainda oferece tours fora dos dias de partida, que passam pelos vestiários, pela zona mista e pelo túnel por onde os jogadores entram. A escala da arquibancada vazia é diferente, mas ainda impressionante. Um Maracanã quieto é um museu de ecos; no dia do jogo, é um organismo vivo. As duas versões valem o tempo.
O sistema de biometria vai parecer burocracia até passar pela catraca e o som te atingir. Aí vira um detalhe menor, uma história que se conta depois sobre como o Brasil agora administra o futebol com reconhecimento facial. Vai lembrar do momento em que sessenta mil pessoas prendem a respiração antes de um pênalti, ou do segundo exato em que um gol transforma a Norte numa onda rubro-negra única. A tecnologia te colocou lá dentro; os humanos fizeram o resto.