Entretenimento
Guia de música sertaneja nas paradas e nos shows ao vivo do Brasil
Henrique & Juliano e Diego & Victor Hugo lideram as paradas do Brasil, enquanto shows enormes provam que o sertanejo vai além do cartão-postal de samba e bossa.
Imagine quarenta mil pessoas numa arena a céu aberto nos arredores de Goiânia, Goiás, com as lanternas dos celulares brilhando em branco numa noite quente de agosto. A dupla principal se calou. Um acorde acústico corta o ar e a multidão assume a música de sofrência palavra por palavra, devolvendo o coração partido ao palco mais alto do que os próprios alto-falantes jamais conseguiriam.
Quarenta mil vozes cantando refrões em coro são um modelo de negócio semanal, não um espetáculo isolado. No ranking de fim de ano do Spotify em 2025, Henrique & Juliano apareceram no topo das paradas de streaming do Brasil pelo segundo ano seguido. O álbum ao vivo Manifesto Musical 2 (Ao Vivo) liderou a lista nacional de álbuns, enquanto Tubarões (Ao Vivo), de Diego & Victor Hugo, ficou com a faixa mais tocada do ano. O restante do top 10 nacional funciona como um mapa sincero do que o brasileiro de fato ouve: Jorge & Mateus, Zé Neto & Cristiano, Matheus & Kauan, os insurgentes do funk MC Ryan SP, MC IG e MC Tuto, o pagode do Grupo Menos É Mais e o rapper carioca Filipe Ret. Samba e bossa nova ainda compõem o cartão-postal global, mas não dominam as paradas nacionais.
Do interior para o campus
O sertanejo nasceu como música caipira nas zonas rurais de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul no início do século passado. Pioneiros como Cornélio Pires gravaram canções de raiz centradas na viola caipira, com duplas de irmãos cantando sobre seca, migração e amor mal resolvido debaixo de mangueiras. Nas décadas de 1970 e 1980, nomes como Milionário & José Rico e Trio Parada Dura ligaram as guitarras elétricas e intensificaram os ritmos, criando o sertanejo romântico que dominou o rádio por décadas. Leandro & Leonardo, Chitãozinho & Xororó e Zezé Di Camargo & Luciano lapidaram ainda mais o som nos anos 1990, acrescentando refrões enormes, dignos de arena, e produção polida. A explosão de verdade veio nos anos 2000, saindo de cidades universitárias como Goiânia e Campo Grande, onde músicos mais jovens fundiram o gênero com texturas de pop, rock e eletrônica. O sertanejo universitário jogou fora a caricatura do chapéu de palha e mirou direto em quem tinha vinte e poucos anos e queria refrões enormes sobre bebedeiras, saudade do ex e farra de sexta-feira.
O disco ao vivo é o disco de verdade
Poucos gêneros dão mais peso a uma gravação ao vivo do que à de estúdio. O sertanejo é um deles. Os artistas lançam registros ao vivo como marcos de carreira, não como plano B. Esses álbuns são gravados diante de plateias cativas em estádios de futebol e parques de rodeio, e a mixagem deixa o rugido da multidão de propósito. Quando cai a ponte e quarenta mil vozes completam a letra em uníssono, aquele instante vira parte do single. O formato também consagra a estrutura de dupla, herança direta da tradição caipira. Duas vozes masculinas revezando versos e travando harmonias, seja no violão ou com produção pesada, segue sendo a formação clássica do gênero. Essa música social nasceu para cantar em grupo, não para ouvir sozinho de fone.
O feminejo pegou o microfone
Por décadas, a história foi contada por homens. Isso mudou em meados dos anos 2010, quando uma onda de artistas mulheres, hoje reunidas sob o rótulo feminejo, obrigou o mercado a reconfigurar as atrações. Marília Mendonça virou o rosto do movimento, transformando sofrimento romântico em hinos de empoderamento até sua morte em 2021. As irmãs gêmeas Maiara & Maraisa lotaram arenas com presença de palco arrebatadora e letras sem filtro sobre amizade e relacionamentos complicados. Simone Mendes se impôs como força solo após a separação da dupla, e Naiara Azevedo construiu uma carreira exigindo respeito de forma desafiadora e muitas vezes humorada. A versão delas da sofrência lota a pista e dobra os números de streaming, provando que a música de término pertence a quem canta mais alto.
Rodeios, agronegócio e a circulação do dinheiro
O dinheiro por trás do sertanejo é impossível de ignorar. O gênero e o agronegócio brasileiro cresceram nas mesmas cidades, e hoje a relação está soldada. Grandes empresas do setor agrícola patrocinam turnês, enquanto os artistas encabeçam as festas do peão que se espalham pelo país. A maior delas, a Festa do Peão de Barretos, toma conta de Barretos, no interior paulista, todo agosto com uma semana de competições de rodeio e shows noturnos no estádio. A entrada diária da edição de 2025 vai de R$ 50 a R$ 200 na área geral, enquanto camarotes privativos e passes VIP para vários dias passam de R$ 2.000, dependendo da data. O público chega de picape polida, a cerveja está gelada, e o uniforme são camisas xadrez e botas de cowboy que custam mais do que muitos salários mensais. A música funciona como um produto cultural de exportação da economia agrícola.
Como assistir sem passar vergonha
Você precisa de ingresso e paciência para lidar com multidões. As grandes turnês de estádio passam pelo Allianz Parque, em São Paulo, pelo Mineirão, em Belo Horizonte, e por arenas equivalentes em todo o país, com entrada geral normalmente entre R$ 80 e R$ 300 em 2025. Lugares na frente e camarotes VIP podem ultrapassar R$ 1.000. Para um clima mais intimista, clubes de Goiânia, a autoproclamada capital do gênero, recebem shows regulares por R$ 30 a R$ 100, às vezes com consumação mínima embutida no valor da entrada. A temporada de festivais ocorre nos meses secos de maio a setembro, quando dezenas de rodeios regionais contratam os principais nomes. Compre com antecedência pelo Sympla ou Eventim, chegue de aplicativo de transporte ou ônibus fretado, e espere revista na entrada. A letra é simples, a emoção é intensa, e ninguém liga se você cantar meio desafinado.
Dez músicas para parar de fingir que não conhece
- “Evidências”, Chitãozinho & Xororó. O hino não oficial de término dos anos 1990.
- “Pense Em Mim”, Leandro & Leonardo. Aula de harmonização romântica da era de ouro.
- “É o Amor”, Zezé Di Camargo & Luciano. A balada radiofônica dos anos 1990 que cruzou todas as fronteiras regionais.
- “Propaganda”, Jorge & Mateus. O polimento do início do universitário com um refrão que ainda toma conta dos bares.
- “Largado Às Traças”, Zé Neto & Cristiano. Sofrência moderna com melodia feita para gritar em grupo.
- “Flor e o Beija-Flor”, Henrique & Juliano part. Marília Mendonça. O ponto onde o boom universitário encontrou a realeza do feminejo.
- “Infiel”, Marília Mendonça. O manifesto do feminejo que transformou traição em power ballad.
- “Tubarões (Ao Vivo)”, Diego & Victor Hugo. A faixa mais tocada do Brasil em 2025, capturando a energia ao vivo do momento.
- “Notificação Preferida”, Zé Neto & Cristiano. Um recorde nas paradas que destila o som atual.
- “Coração Cigano”, Luan Santana e Luísa Sonza. Prova de que o gênero ainda absorve pop e continua evoluindo.