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Ouro de Rebeca Andrade em Paris consolidou seu estrelato no Brasil
Rebeca Andrade conquistou o ouro no solo em Paris e se tornou a maior medalhista do Brasil. Conheça sua trajetória de Guarulhos ao topo da ginástica mundial.
Em 5 de agosto de 2024, Simone Biles e Jordan Chiles se curvaram para o centro do pódio. O gesto não era coreografado. Aconteceu porque Rebeca Andrade tinha acabado de marcar 14,166 no solo e conquistara o ouro à frente das duas americanas. A imagem daquela reverência virou uma das fotos mais marcantes das Olimpíadas de Paris. Andrade estava entre elas, a primeira mulher brasileira a conquistar ouro olímpico numa prova individual de ginástica, já a maior medalhista do país antes mesmo de o exercício terminar. A reverência era reconhecimento. Também significava que a hierarquia do esporte tinha mudado, pelo menos naquela noite em Bercy.
De Guarulhos ao palco mundial
Andrade nasceu em 8 de maio de 1999 em Guarulhos, a densa cidade industrial que faz divisa com a zona nordeste de São Paulo. Aos seis anos, entrou na ginástica por um projeto social da região, um dos milhares de iniciativas de base espalhadas pelo Grande São Paulo que levam crianças ao esporte com infraestrutura mínima e nenhuma garantia de continuidade. A transição desses projetos para o alto rendimento é estreita. Andrade a trilhou se mudando para o Rio de Janeiro na adolescência e entrando para o Clube de Regatas do Flamengo, o clube que formou a maior parte dos talentos da ginástica nacional.
A promessa inicial logo esbarrou nas limitações do corpo. Entre 2015 e 2022, Andrade rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho quatro vezes, e cada lesão exigiu cirurgia e meses de reabilitação. Ela descreveu esses períodos em entrevistas como momentos de isolamento e dificuldade financeira, e contou que seguiu treinando com dor e incerteza, sem a segurança de uma renda garantida. Os retornos não foram apenas físicos. Cada retorno exigiu reaprender movimentos que ela já dominava, reconstruir confiança nos aparelhos onde um único erro agrava o dano articular. Em Tóquio 2020, adiado para 2021, ela já tinha sofrido duas das quatro rupturas de LCA. Mesmo assim, levou o ouro no salto e a prata no individual geral.
A contagem de medalhas que reescreveu os recordes
A campanha em Paris rendeu a Andrade quatro medalhas numa única edição: ouro no solo, prata no individual geral, prata no salto e bronze por equipes. Somadas ao ouro no salto e à prata no individual geral de Tóquio, ela chegou a seis medalhas olímpicas no total. Esse total, dois ouros, três pratas e um bronze, deixou para trás os velejadores Robert Scheidt e Torben Grael, que há mais de duas décadas detinham o recorde brasileiro, com cinco medalhas cada um. Scheidt e Grael conquistaram os feitos ao longo de várias Olimpíadas num esporte em que a longevidade é esperada. Andrade chegou a seis aos 25 anos, numa modalidade em que a maioria dos atletas atinge o auge antes dessa idade e se aposenta pouco depois.
O momento decisivo foi a final do solo. O exercício de Andrade começou com um duplo layout, seguido por uma sequência de saltos ao som de um medley de pop brasileiro e música regional que ela escolheu com os treinadores. A coreografia incorporou movimentos de braço inspirados em danças afro-brasileiras, uma escolha que, segundo ela, foi intencional para marcar sua presença como mulher negra brasileira no palco mais alto do esporte. A nota 14,166 a colocou 0,133 à frente de Biles, que havia vencido o individual geral no início da semana. Chiles ficou com o bronze, com 13,666. A reverência no pódio foi espontânea. Biles iniciou, Chiles acompanhou, e fotógrafos capturaram as três atletas num triângulo de respeito mútuo que circulou em minutos nas redes sociais e nas capas de jornais.
Figura pública, símbolo nacional
A volta de Andrade ao Brasil depois de Paris desencadeou a sequência de honrarias que hoje acompanha o sucesso olímpico dos atletas que transcendem o esporte. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lhe entregou a Ordem de Rio Branco, a mais alta condecoração civil do país para estrangeiros e nacionais, numa cerimônia no Palácio do Planalto. Ela estampou as capas da Vogue Brasil e da Forbes Brasil em poucos meses após os Jogos, a primeira num ensaio de alta costura com cenários do litoral carioca, a segunda incluindo-a na lista de personalidades mais influentes do país com menos de 30 anos.
Os contratos comerciais seguem um padrão que ela definiu em entrevistas: só aceita parcerias com marcas que usa ou acredita representar com coerência. Os patrocinadores atuais incluem Adidas, Samsung e Banco do Brasil. Recusou propostas de empresas de apostas, uma posição que veio à tona quando falou sobre o tema num podcast no fim de 2024, citando a vontade de evitar associações que pudessem chegar aos jovens fãs que a acompanharam desde os projetos sociais onde começou.
Ela trata a questão da representação com franqueza. Em várias entrevistas desde Tóquio, Andrade disse que entende sua visibilidade como mulher negra de origem humilde num esporte historicamente dominado por outros perfis. Contou que recebe mensagens de pais de meninas negras que matricularam as filhas em aulas de ginástica depois de vê-la competir, e afirmou que esse retorno, mais que as medalhas, mede seu impacto. Não se apresenta como ativista. Apresenta-se como prova de que o caminho existe.
Para ver Andrade e a ginástica brasileira ao vivo
Para quem quer ver ginástica de alto nível no Brasil em vez de só pelas transmissões olímpicas, o calendário oferece algumas portas de entrada. A Confederação Brasileira de Ginástica organiza duas competições anuais principais: o Campeonato Brasileiro de Ginástica Artística, normalmente realizado na segunda metade do ano, e o Troféu Brasil, que funciona como série classificatória para a seleção nacional. As sedes alternam entre cidades brasileiras. O Brasileiro de 2024 aconteceu em Vitória, no Espírito Santo, em outubro. O calendário de 2025 ainda não tinha sido definido ao fechar esta edição; a CBG publica as datas em cbg.org.br.
O Flamengo abre ocasionalmente sessões de treino ou competições internas ao público no Ginásio Hélio Maurício, no bairro da Gávea, no Rio. Não são eventos regulares; é preciso acompanhar as redes sociais do clube para se informar sobre os anúncios. Andrade treina principalmente nesse ginásio quando não está em concentrações para competições internacionais.
Os ingressos para o Brasileiro variam por sessão. As finais costumam ficar entre R$ 40 e R$ 120 (preços de 2024), com lugares premium mais próximos de R$ 200. As eliminatórias do Troféu Brasil costumam ser mais baratas ou gratuitas, em ginásios menores com capacidade limitada. Para quem planeja viajar em datas específicas, as finais de semana de Corpus Christi e da Proclamação da República, em junho e novembro, costumam receber eventos de ginástica, embora seja preciso confirmar nos comunicados da CBG.
Para rever as apresentações de Paris
As atuações de Andrade em Paris 2024 seguem disponíveis nos canais oficiais olímpicos. O site Olympics.com disponibiliza as reprises completas de todas as finais por aparelhos e do individual geral, acessíveis sem assinatura, mas a disponibilidade regional pode exigir endereço de IP do Brasil para parte do conteúdo. O canal oficial do YouTube dos Jogos Olímpicos tem destaques editados da final do solo, da final do salto e do individual geral, incluindo a cerimônia do pódio com Biles e Chiles. As emissoras brasileiras SporTV e GloboPlay mantiveram os direitos de reprise dos Jogos de Paris até o fim de 2024; seus acervos podem se estender até 2025 conforme as renovações de licenciamento.
Para quem quer contexto em vez de só ver os exercícios isolados, o próprio canal do YouTube da CBG publica imagens de competições nacionais com narração em português, úteis para entender como os exercícios de Andrade evoluíram desde Paris. A música do solo, o medley brasileiro que acompanhou a medalha de ouro, foi identificada por fãs como uma mistura de trechos do BaianaSystem e de outros artistas brasileiros contemporâneos, embora a própria Andrade não tenha confirmado publicamente a lista completa de faixas.
O que vem agora, e o que já mudou
Andrade não anunciou planos de aposentadoria, e este texto não vai especular sobre eles. Ela indicou em entrevistas que pretende seguir competindo pelo menos até a temporada de 2025, com o Mundial em Jacarta como alvo provável. O histórico de lesões no joelho torna inútil qualquer previsão de longo prazo. Ela já superou todos os marcos anteriores de longevidade da ginástica brasileira.
A pergunta mais interessante é o que a presença dela mudou. Os programas de ginástica em projetos sociais relatam aumento de matrículas desde Tóquio, uma tendência que acelerou depois de Paris. A CBG não publicou estatísticas nacionais abrangentes, mas clubes isolados em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte descreveram listas de espera para turmas de iniciação. Se isso vai gerar uma geração de atletas competitivos, ainda é cedo para saber. O que já está visível é a mudança no perfil de quem aparece na propaganda da ginástica brasileira, nas fotos da comissão técnica, na plateia dos campeonatos nacionais. A imagem padrão do esporte no Brasil já não se restringe a um único perfil demográfico.
Andrade não pediu para carregar esse peso. Pediu para executar o solo de forma limpa, para acertar os pousos no salto, para completar o exercício nas barras sem os erros que às vezes lhe custaram pontos no individual geral. A reverência de Biles e Chiles não se resumia a nenhuma dessas coisas. Era sobre o fato de que ela tinha feito isso, repetidamente, atravessando lesões, incerteza financeira e a negligência estrutural que os atletas brasileiros de esportes que não geram receita aprendem a enfrentar. A reverência dizia: nós vemos o quanto isso custou. A carreira de Andrade diz: o custo valeu a pena, e o caminho, por mais estreito que seja, agora está mais largo atrás dela.